Acho que nunca na minha vida eu consegui desabafar de maneira tão sincera como ontem. Escrever sempre foi fácil pra mim, mas só quando eu sabia que ninguém iria ler. Assim como eu não consigo dizer meus problemas em voz alta, também não consigo escrevê-los quando sei que alguém irá ler. Não quero que saibam o que se passa comigo. Não quero pena, não quero preocupação, não quero criar problemas para os outros. Mas ontem eu consegui. Consegui escrever tudo que eu sinto e tudo pelo que eu já passei. Como?
WebMD. Esse é o nome do site que salvou a minha vida. Ok, isso foi exagerado. Não importa o quão ruim meus sentimentos e pensamentos estejam, minha vida nunca está exatamente em perigo, eu nunca me mataria. E não fique achando que é porque eu nunca pensei nisso. Muito pelo contrário, eu já pensei demais nisso. Mas todas as vezes que penso no assunto, aquela vozinha estúpida que sempre me lembra dos problemas dos outros vem gritando "Você não pode fazer isso com a sua mãe!". Então eu continuo aqui, ocupando espaço e gastando dinheiro que minha família poderia estar usando pra coisas mais importantes. Tudo porque minha mãe me ama e eu jamais a machucaria desse jeito.
Bom, voltando ao que interessa: WebMD. O site que me fez ver a vida de outra maneira. Eu já tinha pensado diversas vezes em procurar ajuda online, mas nunca tinha feito isso. Porém ontem eu estava tão mal que, pela primeira vez, cheguei ao ponto de machucar a mim mesma para me acalmar e isso me assustou. Corri para a internet e procurei em diversos sites até achar um que eu gostasse. Comecei a ler desabafos de diversas pessoas que, assim como eu, não tinham com quem conversar e procuraram o site para apoio. A cada texto que eu lia, eu me sentia menos sozinha e mais segura, apesar de ninguém realmente ter uma história parecida com a minha.
Horas depois, resolvi desabafar também. Pensei que só iria escrever algo sobre como eu me sentia naquele dia, mas quando dei por mim eu já havia escrito quase toda a minha história de vida e todos os meus problemas. 4000 caracteres quase não foram o suficiente para toda a dor que eu queria colocar pra fora. Esperei e esperei. Abri e fechei o site diversas vezes. Ninguém me respondeu. Presumi que fosse porque o meu texto era tão enorme que ninguém se deu ao trabalho de ler. Mais uma vez eu estava sendo ignorada.
Hoje abri o site de novo. Vi que havia um novo texto, enviado horas após o meu e resolvi ler. Cada frase que eu lia parecia ter sido escrita por mim mesma. Apesar de algumas diferenças, a história da pessoa por trás daquele post era incrivelmente parecida com a minha. Escrevi uma resposta logo em seguida, dizendo como eu estava surpresa por finalmente achar alguém com uma história tão parecida com a minha, demonstrei meu apoio e desejei o melhor para a pessoa por trás do nickname anônimo. Algum tempo depois notei que havia uma resposta no meu desabafo original. No meu texto gigante que ninguém leu. Era da mesma pessoa cujo texto eu havia lido e achado tanto em comum, dizendo que ela havia lido meu post e descobrindo mais pontos que nossas histórias se pareciam.
Existem milhões de pessoas no mundo com depressão mas eu nunca me senti conectada a nenhuma delas, porque eu não tive uma família ruim, uma infância trágica ou um evento traumático na minha vida que faça as pessoas entenderem o motivo da minha depressão. Eu jamais desejaria a outra pessoa o que eu sinto todos os dias. No entanto, hoje, ao ler o texto de alguém que realmente entende pelo que eu passei e como eu me sinto... Meu Deus. Não há nada mais libertador do que esse sentimento de compreensão. Alguém me entende. A calma que segue essa compreensão é algo que eu não sinto há anos. E é tão bom.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Knock on wood
Ontem acordei e me peguei pensando que havia algo de importante sobre aquele dia que me fazia odiá-lo, mas eu não entendia porque. Sabe quando você tem certeza que esqueceu algo, mas não consegue lembrar o que, ai fica o dia inteiro cavando na mente pra tentar descobrir? Essa era eu ontem. Quando eu finalmente olhei pro calendário, ver a data ali escrita me trouxe uma lembrança de algum dia ter anotado na minha agenda que dia 3 de Agosto é o dia do aniversário da minha irmã mais velha. A lembrança me atingiu em cheio, bem no peito, onde dizem que fica o coração, e eu não consegui mais me concentrar em nada.
Na hora do jantar me sentei no meu lugar de sempre, mas não jantei. A refeição em família, ato tão rotineiro aqui em casa, naquele dia não parecia certo. Era seu aniversário. A família não pode ter uma refeição em família no dia do aniversário de um de seus membros se o próprio aniversariante não estiver lá! Pode? Eu não pude. Me levantei e fui dormir, fingindo para minha mãe e eu irmão que não sentia nada mais do que um pequeno mal estar comum.
Eu jamais poderia explicar a eles a real causa do meu desconforto, afinal você é um assunto implicitamente proibido nessa casa. Quando seu nome é acidentalmente proferido, todos os presentes se calam e batem três vezes na madeira. Daquele jeito que as mães de antigamente faziam quando seus filhos desavisados pronunciavam o nome do Diabo dentro de suas casas. Acho que só essa comparação já é o suficiente pra entender o quão tabu é esse assunto.
Eu nunca bati na madeira ao ouvir seu nome. Eu nunca evitei falar de você por raiva, ou nojo, ou qualquer motivo que os leve a te evitar. Mas eu também nunca disse a ninguém que sinto sua falta. Nunca contei pra ninguém que as vezes durmo olhando pra sua cama, abandonada vazia ao lado da minha, e sonho que você ainda está ali, tão perto que posso tocá-la até durante meu sono. Por que motivo eu contaria tudo isso pra eles? Eles não entenderiam, mas só porque eles não sabem o que eu sei.
Eles não sabem que aquela pessoa que foi embora fugida daqui, com tudo o que conseguiu levar e mais a nossa habilidade de acreditar no lado bom das coisas, aquela pessoa não é a mesma que morou aqui. Aquela pessoa não é a mesma que dividiu o o quarto comigo todos os dias durante anos, me dando boa noite e dizendo que me amava, que me viu crescer e passou a minha infância me prometendo que quando eu tivesse idade suficiente, ela seria a primeira a me levar pra balada. A pessoa que tirou o brilho dos olhos da minha família não pode ser a mesma pessoa que colocava esse mesmo brilho nos meus olhos todas as vezes que penteava meu cabelo ou fazia minha maquiagem para a festa junina do colégio. Pode?
Na hora do jantar me sentei no meu lugar de sempre, mas não jantei. A refeição em família, ato tão rotineiro aqui em casa, naquele dia não parecia certo. Era seu aniversário. A família não pode ter uma refeição em família no dia do aniversário de um de seus membros se o próprio aniversariante não estiver lá! Pode? Eu não pude. Me levantei e fui dormir, fingindo para minha mãe e eu irmão que não sentia nada mais do que um pequeno mal estar comum.
Eu jamais poderia explicar a eles a real causa do meu desconforto, afinal você é um assunto implicitamente proibido nessa casa. Quando seu nome é acidentalmente proferido, todos os presentes se calam e batem três vezes na madeira. Daquele jeito que as mães de antigamente faziam quando seus filhos desavisados pronunciavam o nome do Diabo dentro de suas casas. Acho que só essa comparação já é o suficiente pra entender o quão tabu é esse assunto.
Eu nunca bati na madeira ao ouvir seu nome. Eu nunca evitei falar de você por raiva, ou nojo, ou qualquer motivo que os leve a te evitar. Mas eu também nunca disse a ninguém que sinto sua falta. Nunca contei pra ninguém que as vezes durmo olhando pra sua cama, abandonada vazia ao lado da minha, e sonho que você ainda está ali, tão perto que posso tocá-la até durante meu sono. Por que motivo eu contaria tudo isso pra eles? Eles não entenderiam, mas só porque eles não sabem o que eu sei.
Eles não sabem que aquela pessoa que foi embora fugida daqui, com tudo o que conseguiu levar e mais a nossa habilidade de acreditar no lado bom das coisas, aquela pessoa não é a mesma que morou aqui. Aquela pessoa não é a mesma que dividiu o o quarto comigo todos os dias durante anos, me dando boa noite e dizendo que me amava, que me viu crescer e passou a minha infância me prometendo que quando eu tivesse idade suficiente, ela seria a primeira a me levar pra balada. A pessoa que tirou o brilho dos olhos da minha família não pode ser a mesma pessoa que colocava esse mesmo brilho nos meus olhos todas as vezes que penteava meu cabelo ou fazia minha maquiagem para a festa junina do colégio. Pode?
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