Ontem acordei e me peguei pensando que havia algo de importante sobre aquele dia que me fazia odiá-lo, mas eu não entendia porque. Sabe quando você tem certeza que esqueceu algo, mas não consegue lembrar o que, ai fica o dia inteiro cavando na mente pra tentar descobrir? Essa era eu ontem. Quando eu finalmente olhei pro calendário, ver a data ali escrita me trouxe uma lembrança de algum dia ter anotado na minha agenda que dia 3 de Agosto é o dia do aniversário da minha irmã mais velha. A lembrança me atingiu em cheio, bem no peito, onde dizem que fica o coração, e eu não consegui mais me concentrar em nada.
Na hora do jantar me sentei no meu lugar de sempre, mas não jantei. A refeição em família, ato tão rotineiro aqui em casa, naquele dia não parecia certo. Era seu aniversário. A família não pode ter uma refeição em família no dia do aniversário de um de seus membros se o próprio aniversariante não estiver lá! Pode? Eu não pude. Me levantei e fui dormir, fingindo para minha mãe e eu irmão que não sentia nada mais do que um pequeno mal estar comum.
Eu jamais poderia explicar a eles a real causa do meu desconforto, afinal você é um assunto implicitamente proibido nessa casa. Quando seu nome é acidentalmente proferido, todos os presentes se calam e batem três vezes na madeira. Daquele jeito que as mães de antigamente faziam quando seus filhos desavisados pronunciavam o nome do Diabo dentro de suas casas. Acho que só essa comparação já é o suficiente pra entender o quão tabu é esse assunto.
Eu nunca bati na madeira ao ouvir seu nome. Eu nunca evitei falar de você por raiva, ou nojo, ou qualquer motivo que os leve a te evitar. Mas eu também nunca disse a ninguém que sinto sua falta. Nunca contei pra ninguém que as vezes durmo olhando pra sua cama, abandonada vazia ao lado da minha, e sonho que você ainda está ali, tão perto que posso tocá-la até durante meu sono. Por que motivo eu contaria tudo isso pra eles? Eles não entenderiam, mas só porque eles não sabem o que eu sei.
Eles não sabem que aquela pessoa que foi embora fugida daqui, com tudo o que conseguiu levar e mais a nossa habilidade de acreditar no lado bom das coisas, aquela pessoa não é a mesma que morou aqui. Aquela pessoa não é a mesma que dividiu o o quarto comigo todos os dias durante anos, me dando boa noite e dizendo que me amava, que me viu crescer e passou a minha infância me prometendo que quando eu tivesse idade suficiente, ela seria a primeira a me levar pra balada. A pessoa que tirou o brilho dos olhos da minha família não pode ser a mesma pessoa que colocava esse mesmo brilho nos meus olhos todas as vezes que penteava meu cabelo ou fazia minha maquiagem para a festa junina do colégio. Pode?