terça-feira, 14 de outubro de 2014

WebMD

          Acho que nunca na minha vida eu consegui desabafar de maneira tão sincera como ontem. Escrever sempre foi fácil pra mim, mas só quando eu sabia que ninguém iria ler. Assim como eu não consigo dizer meus problemas em voz alta, também não consigo escrevê-los quando sei que alguém irá ler. Não quero que saibam o que se passa comigo. Não quero pena, não quero preocupação, não quero criar problemas para os outros. Mas ontem eu consegui. Consegui escrever tudo que eu sinto e tudo pelo que eu já passei. Como?
          WebMD. Esse é o nome do site que salvou a minha vida. Ok, isso foi exagerado. Não importa o quão ruim meus sentimentos e pensamentos estejam, minha vida nunca está exatamente em perigo, eu nunca me mataria. E não fique achando que é porque eu nunca pensei nisso. Muito pelo contrário, eu já pensei demais nisso. Mas todas as vezes que penso no assunto, aquela vozinha estúpida que sempre me lembra dos problemas dos outros vem gritando "Você não pode fazer isso com a sua mãe!". Então eu continuo aqui, ocupando espaço e gastando dinheiro que minha família poderia estar usando pra coisas mais importantes. Tudo porque minha mãe me ama e eu jamais a machucaria desse jeito.
          Bom, voltando ao que interessa: WebMD. O site que me fez ver a vida de outra maneira. Eu já tinha pensado diversas vezes em procurar ajuda online, mas nunca tinha feito isso. Porém ontem eu estava tão mal que, pela primeira vez, cheguei ao ponto de machucar a mim mesma para me acalmar e isso me assustou. Corri para a internet e procurei em diversos sites até achar um que eu gostasse. Comecei a ler desabafos de diversas pessoas que, assim como eu, não tinham com quem conversar e procuraram o site para apoio. A cada texto que eu lia, eu me sentia menos sozinha e mais segura, apesar de ninguém realmente ter uma história parecida com a minha.
          Horas depois, resolvi desabafar também. Pensei que só iria escrever algo sobre como eu me sentia naquele dia, mas quando dei por mim eu já havia escrito quase toda a minha história de vida e todos os meus problemas. 4000 caracteres quase não foram o suficiente para toda a dor que eu queria colocar pra fora. Esperei e esperei. Abri e fechei o site diversas vezes. Ninguém me respondeu. Presumi que fosse porque o meu texto era tão enorme que ninguém se deu ao trabalho de ler. Mais uma vez eu estava sendo ignorada.
          Hoje abri o site de novo. Vi que havia um novo texto, enviado horas após o meu e resolvi ler. Cada frase que eu lia parecia ter sido escrita por mim mesma. Apesar de algumas diferenças, a história da pessoa por trás daquele post era incrivelmente parecida com a minha. Escrevi uma resposta logo em seguida, dizendo como eu estava surpresa por finalmente achar alguém com uma história tão parecida com a minha, demonstrei meu apoio e desejei o melhor para a pessoa por trás do nickname anônimo. Algum tempo depois notei que havia uma resposta no meu desabafo original. No meu texto gigante que ninguém leu. Era da mesma pessoa cujo texto eu havia lido e achado tanto em comum, dizendo que ela havia lido meu post e descobrindo mais pontos que nossas histórias se pareciam.
          Existem milhões de pessoas no mundo com depressão mas eu nunca me senti conectada a nenhuma delas, porque eu não tive uma família ruim, uma infância trágica ou um evento traumático na minha vida que faça as pessoas entenderem o motivo da minha depressão. Eu jamais desejaria a outra pessoa o que eu sinto todos os dias. No entanto, hoje, ao ler o texto de alguém que realmente entende pelo que eu passei e como eu me sinto... Meu Deus. Não há nada mais libertador do que esse sentimento de compreensão. Alguém me entende. A calma que segue essa compreensão é algo que eu não sinto há anos. E é tão bom.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Knock on wood

          Ontem acordei e me peguei pensando que havia algo de importante sobre aquele dia que me fazia odiá-lo, mas eu não entendia porque. Sabe quando você tem certeza que esqueceu algo, mas não consegue lembrar o que, ai fica o dia inteiro cavando na mente pra tentar descobrir? Essa era eu ontem. Quando eu finalmente olhei pro calendário, ver a data ali escrita me trouxe uma lembrança de algum dia ter anotado na minha agenda que dia 3 de Agosto é o dia do aniversário da minha irmã mais velha. A lembrança me atingiu em cheio, bem no peito, onde dizem que fica o coração, e eu não consegui mais me concentrar em nada.
          Na hora do jantar me sentei no meu lugar de sempre, mas não jantei. A refeição em família, ato tão rotineiro aqui em casa, naquele dia não parecia certo. Era seu aniversário. A família não pode ter uma refeição em família no dia do aniversário de um de seus membros se o próprio aniversariante não estiver lá! Pode? Eu não pude. Me levantei e fui dormir, fingindo para minha mãe e eu irmão que não sentia nada mais do que um pequeno mal estar comum.
          Eu jamais poderia explicar a eles a real causa do meu desconforto, afinal você é um assunto implicitamente proibido nessa casa. Quando seu nome é acidentalmente proferido, todos os presentes se calam e batem três vezes na madeira. Daquele jeito que as mães de antigamente faziam quando seus filhos desavisados pronunciavam o nome do Diabo dentro de suas casas. Acho que só essa comparação já é o suficiente pra entender o quão tabu é esse assunto.
          Eu nunca bati na madeira ao ouvir seu nome. Eu nunca evitei falar de você por raiva, ou nojo, ou qualquer motivo que os leve a te evitar. Mas eu também nunca disse a ninguém que sinto sua falta. Nunca contei pra ninguém que as vezes durmo olhando pra sua cama, abandonada vazia ao lado da minha, e sonho que você ainda está ali, tão perto que posso tocá-la até durante meu sono. Por que motivo eu contaria tudo isso pra eles? Eles não entenderiam, mas só porque eles não sabem o que eu sei.
          Eles não sabem que aquela pessoa que foi embora fugida daqui, com tudo o que conseguiu levar e mais a nossa habilidade de acreditar no lado bom das coisas, aquela pessoa não é a mesma que morou aqui. Aquela pessoa não é a mesma que dividiu o o quarto comigo todos os dias durante anos, me dando boa noite e dizendo que me amava, que me viu crescer e passou a minha infância me prometendo que quando eu tivesse idade suficiente, ela seria a primeira a me levar pra balada. A pessoa que tirou o brilho dos olhos da minha família não pode ser a mesma pessoa que colocava esse mesmo brilho nos meus olhos todas as vezes que penteava meu cabelo ou fazia minha maquiagem para a festa junina do colégio. Pode?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Máscaras

          Ela sabia como eles pensariam, então por muito tempo se forçou a acreditar que tinha tudo de que precisava e que não deveria se sentir daquele jeito. Porém continuava sofrendo. E se sentia tão culpada que fazia tudo a seu alcance pra todos estarem felizes. É uma menina tão generosa, e está sempre tão feliz. Todos acreditaram. Não há alguém no mundo que a tenha visto sorrir e sequer desconfiado do tamanho do esforço que ela fazia pra não chorar.
          Mas tudo tem limite. Ninguém sabe explicar como ou porque, mas de uma hora pra outra o mundo dela virou de cabeça pra baixo e nada mais parecia confiável. Tudo que ela fazia antes parecia mais difícil agora, a máscara que ela colocava todos os dias de repente parecia mais pesada. Até que ela não conseguiu mais fingir. Caiu, e foi de cara no chão.
          Várias mãos se ofereceram para puxá-la pra cima, mas ela não levantou. Ela não quer levantar, gosta do drama, da atenção. Mas ela tentou! Mas cada vez que ia se equilibrar, o mundo mexia e ela caía de cara no chão. De novo. Então cansou de tentar. Ali era tão confortável, tão fácil. Sem máscara pra colocar, sem emoções para fingir. Por que não ficar? E ficou. Os dias passavam e ela raramente percebia, ia de um para o outro sem saber que a noite havia passado. Dormia o tempo todo, então não fazia diferença.
          Depois de um tempo todos pararam de perguntar se ela estava bem e se precisava de alguma coisa. Depois de um tempo todos se cansaram e passaram a achar que agora já é exagero, é frescura. Não é que eles não acreditem nela, é só que não a entendem. Afinal, ela tem uma família, uma casa, uma escola, comida na mesa, não tem do que reclamar. Eles pensavam exatamente como ela sabia que pensariam.
          Um certo dia ela zapeava pelos canais de TV sem prestar atenção, era um dia como outro qualquer, uma tarde tão vazia como todas as outras, mas naquele dia, não se sabe porque, ela olhou em volta. Olhou e viu que não tinha mais ninguém ali. Se sentiu tão aliviada que parecia que tinha tirado um peso enorme de seus ombros.
          E foi aí que ela percebeu. Percebeu que odiava eles tentando ajudar, tentando entendê-la e não dava a mínima para o que eles pensavam dela. Percebeu que não valia a pena ficar no chão. E daí que tudo parecia estar no lugar errado? Se ela continuar andando talvez encontre um lugar em que tudo pareça certo. Um lugar em que ela se sinta em casa.
          Era um dia como outro qualquer, uma tarde tão vazia como todas as outras, mas naquele dia, não se sabe porque, ela acordou. Acordou do sonho que sonhava acordada. Acordou do modo automático sob o qual estava vivendo. Acordou pra vida. E decidiu vivê-la.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Cry my words out

          Eu sempre achei que, quando eu tivesse a chance, falaria tudo aquilo que ficou guardado, me libertaria do aperto que sinto no peito. Mas o telefone tocou, eu atendi e você me chamou pelo nome. Qual outra oportunidade poderia ser melhor do que essa? E eu queria falar, queria cuspir todos os xingamentos que escolhi pra você, tudo aquilo que passei meses imaginando. Mas minha voz havia sumido.
          Eu não conseguia falar, mas as palavras continuavam querendo sair. Lágrimas começaram a escorrer descontroladamente pelo meu rosto. E foi então que eu percebi: eu não estava chorando de raiva, muito menos de tristeza. Eu chorava palavras. As palavras que ficaram presas quando o nó na minha garganta as impediu de passar; elas acharam outro modo de sair. E, quem diria, esse modo foi muito mais efetivo. Afinal, você nunca escuta o que te dizem, mas me ouvir chorar pelo menos te fez pensar nas consequências dos teus atos.

Adeus, eu te amo, oi.

          Entro no msn e vejo você online. Abro uma conversa, começo a escrever, mas algo me diz que aquilo que escrevi não é bom o suficiente. Com você a conversa precisa ser perfeita, tudo precisa ser perfeito. Apago. Escrevo outra frase. Apago de novo. Escrevo outra. Apago mais uma vez. Paro e penso em toda a nossa história, em tudo que passamos juntos, em tudo que dissemos um para o outro. Então finalmente me lembro que o que eu mais gosto em estar com você é que ao seu lado posso ser quem eu sou, sem precisar me esforçar.
          Respiro fundo e escrevo a primeira frase que vem na minha cabeça. Mas ao ver o que escrevi, apago novamente. Apesar de ser a coisa mais perfeita que eu possa te dizer, “Eu te amo” não é um bom jeito de te dizer “Olá”. Especialmente por ter sido assim que eu te disse “Adeus” na última vez que nos vimos. No dia em que eu achei que finalmente estaria te deixando no passado.
          Como fui boba de pensar que poderia te esquecer. Porém agora eu percebi que isso nunca vai acontecer. Eu vou te amar pra sempre.

Esperança

          Eu queria era saber porque é só de mim que você cobra. Porque comigo é tudo sobre o que eu deixei de fazer e nunca sobre o que eu conquistei? Enquanto com os outros é sempre sobre como eles são maravilhosos e como eles se deram bem na vida, o que é uma grande mentira, pois a única coisa que eles fizeram a vida toda, seja por vontade própria ou não, foi drenar todas as suas forças. Eles estão mais do que acostumados a aparecer quando você está bem e sumir quando já pegaram tudo o que podiam.
          Mas não quero entrar nesse assunto. Não comecei a escrever pra falar deles, e sim de você. Porque se tudo isso aconteceu, foi porque você permitiu. Eu juro que desde pequena eu nunca entendi porque o tratamento era tão diferente, porque eu sou a única de quem você exige alguma coisa, sendo que as atitudes deles são centenas de vezes piores do que as minhas. E não venha me dizer que você só cobra de mim porque se importa mais comigo, porque não é por mim que você chora todas as noites; é por eles.
          E, apesar de me faltar coragem pra te dizer isso, eu cansei. Cansei de ser a sua decepção. Mas eu ainda tenho esperança de que um dia você vai olhar pra mim e seus olhos estarão cheios de orgulho; o mesmo orgulho que eu vejo nos seus olhos quando você olha pra eles.

Seu sorriso

          As vezes sinto que não vou mais aguentar nem um minuto ouvindo você falar dela. Mas de repente olho pro seu sorriso, que se faz enorme enquanto fala dela, e aí… Aí então não tenho mais saída, simplesmente me perco nos seus olhos que brilham e a felicidade que seu coração esbanja me contagia.
          Mesmo os motivos não sendo os que eu gostaria que fossem, tudo o que me importa é que esteja feliz e que eu possa compartilhar dessa felicidade contigo, ainda que somente com a tua amizade. Pois por mais que eu não possa te abraçar e te dizer o que realmente sinto, só de poder passar alguns minutos ao teu lado e ver como está feliz já me dou por satisfeita.